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Minha Senhora de Mim,

O gesto tecedor do íntegro.

Do gesto surge o gesto. Do gesto surge a coreografia despontuada e desprovida de finitudes, a entre-linguagem na linguagem, o intersticial no concreto, o indizível comunicável. Do gesto transitivo e renascente na sua inerente continuidade, se vive perpetuamente entre. Do gesto se medeia, se estabelece a relação entre si e as coisas. Do gesto se tece o íntegro em trama.
 

Assim como o gesto criativo — fenómeno da fertilidade do vazio e súbito deslize do não designável para o desígnio, ou do desígnio para um novo desígnio desocupado — esta exposição nasce do entre, da trama tecida em sucessivas coreografias mínimas que unem as relações das partes no todo.

comigo me desavim / minha senhora de mim

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Refiro-me ao ser-se mulher. Assunto amplo, que nem mil palavras nem mil exposições poderiam definir, e, por isso, é o contrário da definição que procuramos: o desviciar da definição.

Poderá ser difícil de distinguir, à partida, que gestos são estes e o que os mesmos integram, ainda mais porque o objectivo será extinguir a separação a que a parte e o todo incitam. Considerar a parte é permitir a fragmentariedade, a desintegração que se objetifica exatamente na parte. Considerar o todo é voltar a uma definição unificadora das partes. E daí nos focarmos nos gestos, enquanto fenómenos do intersticial, enquanto entre lugar ou entre coisa. Ser entre as coisas invalida o ser‑se coisa.
 

Nem uma nem duas – assim nos liberta Luce Irigaray. Nem o todo nem a parte. Outra coisa, coisa que não pode ser coisa, porque ser uma coisa é ser uma e ser também as suas partes.

 

Assim como a palavra não é o poema, o poema não é só a soma das palavras. O poema faz- se dos gestos das palavras entre si.

Minha Senhora de Mim, título homónimo do livro e poema de Maria Teresa Horta, introduz a exposição no gesto que a define — o de pertencer‑se entre si mesma.

sem ser dor ou ser cansaço / nem o corpo que desfaço

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Também não se pretende a indefinição. Encontramo-nos sempre através de algum lugar. E se o gesto conecta um lugar ao outro, é através do gesto que nos transportamos. O gesto implica o corpo, o transporte do corpo pelo corpo. Aqui já nos cruzamos com as obras desta exposição, uma vez que as obras são também lugares de transporte ou transferência do corpo, ou, no mínimo, dos seus gestos.

 

Poderíamos avançar ainda mais e dizer que uma obra é senhora de si neste sentido, pois é em si mesma que se cumpre, e coincidir ainda a Senhora de Mim artista com a Senhora de Mim obra, uma vez que ambas se transmitem e desfazem mutuamente.

 

Nesta exposição, as obras integram-se pelos gestos do corpo, tornando simultâneas ausência e presença, assim como o bordar da renda ornamenta e torna designáveis pequenos espaços de vazio. Na obra ″As janelas e as portas da minha casa″, de Ânia Pais, o vazio bordado pela madrinha Helena e o vazio do tecido rasgado abrem lugar a uma sobreposição de gestos numa fenda identitária onde coincidem o Eu e o Outro, extinguindo-se mutuamente na fenda do espaço vazio entre ambos. O mesmo vazio, ou fenda, é perceptível nas duas pinturas de Pereira Rute, ″Que saudade do que não se pode encontrar″ e ″A gaveta″, não só entre as duas personagens duplas – a mesma lógica do entre Eu/Outro – como no inexistente, ou antes, no existencial, que contém a gaveta.
 

A fenda existe entre as duas personagens duplas, mas não numa, nem na outra, nem nas duas, embora só o gesto de procura possa mencionar o que não se pode encontrar. Ainda, no díptico ″a rosa é sem porquê, floresce porque floresce″, de Sofia Vermelho, o corpo descobre-se no vazio entre os gestos da matéria que o desfazem, ou na tentativa sucessiva da sua formulação. O formato díptico afirma a desdobragem e o entre corpo onde se encontra o corpo e que nem em um nem em dois se encontra a sua definição.

recusando o que é desfeito / no interior do meu peito

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É importante notar que não se considera a fenda como incompleta. Os mitos da falta e da incompletude, que perpetuam a condição feminina, servem apenas para que os contrariemos. Pensamos a fenda do mesmo modo que pensamos o entre, como lugar de comunicabilidade - o mesmo lugar que ocupa o gesto e o ato criativo.

A fenda é a origem. Mas dizer que a fenda inaugura a interioridade ou que estabelece a via entre o interior e o exterior é pressupor a separação destes planos e a sua incomunicabilidade. A fenda é a original integração de ambos, extinguindo‑os pela total absorção dos seus limites. Percepcionar a fenda como ferida, ou como ruptura é, para além disso, julgar que atravessar esses limites, desde já condicionantes, é disruptivo, transgressor ou mesmo desobediente. É perpetuar a desintegração da liberdade feminina e condicioná-la à polarização. A transgressão assenta na admissão do seu oposto e mantém o discurso separatista que não nos reflete.

 

Daqui a ruína se sugerir correspondente ao espaço despolarizado da fenda, onde o corpo se desintegra na comunicação com o seu entorno. É através das marcas de deterioração na beleza canónica de uma estátua ou de um templo que se abre esse lugar dobrado em si mesmo, coincidido pela sobreposição dos seus contrastes.

Este confronto é manifesto em ″Cariátides″ de Sofia Vermelho, marcando pela emergência do desejo feminino o contraste com um cânone que não serve ao seu devir. De outro modo, Ânia Pais sugere em ″Esqueleto″ a coluna de um templo destruído na sua condição corpórea, enquanto Natacha Martins, na série de pinturas em papel ″Victory of Samothrace (I,II,III)″, incorpora a fenda na ruína ao tornar simultâneas e sobrepostas a presença e a ausência, o completo e o incompleto, afirmando a verdade do corpo – os seus gestos desejantes, animados pela força da sua constante renascença – no espaço intersticial aberto pela deterioração do cânone, ou do ideal, do qual o corpo de mulher alada talvez já procurasse libertar-se. A informidade da ruína corresponde à impossibilidade de designação e unificação do corpo, mesmo que este assim pareça fechado, revelando a sua natureza transiente, perecível e informe. Neste sentido, a ruína sugere a incorporação da presença na ausência, sendo a imaginação ou a potência do gesto o seu fenómeno integrador.

 

Do mesmo modo que a renda torneia e define o vazio – a fenda, o completo em si – e o gesto tece a sua integração, também a Minha Senhora de Mim – pela procura da sua continuidade, entre o seu próprio desígnio múltiplo, simultâneo e livre – talvez só se se viva e se pertença a si, entre si.

Sofia Vermelho

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